
Existem dois segredos para o enriquecimento. Um deles, que não é segredo para ninguém, é gastar menos do que se ganha. O segundo segredo, esse sim poucos sabem, é não esquecer o primeiro segredo. Para enriquecer é necessário aplicar os segredos consistentemente. O resto é detalhe e, neste artigo, vamos tratar de um muito importante, investir bem o dinheiro que sobra.
A maioria dos que colocam os segredos em prática não sabe o que fazer com o dinheiro. Então vai tudo para a poupança ou para uma “superdica” do gerente do banco (tipo um título de capitalização pior do que a Tele Sena). Alguns ficam presos à poupança pelo preciosismo de procurar a melhor forma de investir. O desejo de otimizar gera paralisia por análise, quando pensar demais sobre o melhor a fazer te bloqueia e você não faz nada. A verdade é que a melhor forma de investir não existe. Quer dizer, até existe, seria você adivinhar o investimento campeão do ano e colocar tudo que tem nele no início do ano (e conseguir fazer isso todo ano obviamente). Mas ninguém consegue fazer isso, até os melhores times de research erram feio e perdem dinheiro. Já teve até prêmio nobel de economia abrindo fundo de investimento e passando vergonha (pesquise sobre o fundo LTCM dos nobeis Merton e Scholes). Cálculos matemáticos complexos podem fazer você ser premiado e reconhecido, mas não garantem sucesso financeiro.
Estudo sobre finanças e investimentos há uns dez anos, mal tinha dinheiro para o lanche na faculdade quando comecei. Mas sabia que, quando tivesse, gostaria de investir bem. Vim de uma casa onde investimento e caderneta de poupança eram sinônimos e sempre ouvia dizer, em diversos meios, que este não era um bom investimento. Mas como investir direito então? Pois bem, nesse tempo todo, pensando de forma popperiana, não vi nenhuma forma melhor do que a descrita neste artigo para as pessoas começarem bem.
Primeiro passo: você precisa formar sua reserva de emergência (veja o artigo A importância de ter uma reserva de emergência). Depois disso, você precisa modular o seu apetite para risco: quanto deixará em renda fixa (títulos públicos e privados) e quanto deixará em renda variável (ações, imóveis, dólar, criptomoedas, etc). Ainda na renda variável, você pode se alocar em alguns ativos que podem ser considerados uma espécie de seguro, pois resguardam valor em momentos de crise (ouro, terras cultiváveis, opções de venda out of the money, etc).
É bom pensar sua carteira de investimentos em percentuais. Por exemplo, 60% em renda fixa e 40% em renda variável. Não necessariamente a renda fixa é menos arriscada, pois os riscos de ativos, como defende Nassim Taleb, podem não se mostrar na forma de volatilidade de preços, como acontece com o preço de uma ação (leia os livros Black Swan e Antifragile, são somente espetaculares). Os riscos podem ficar escondidos “embaixo do tapete” até que um evento súbito acontece e gera grandes perdas. Mas, a princípio, podemos adotar a convenção clássica de que a renda variável seria mais arriscada.
Em seguida, determinar o que fazer dentro de cada renda. Dentro da renda fixa, você vai precisar ter uma posição de caixa, com bastante liquidez, no mesmo ativo em que você colocou sua reserva de emergência (Tesouro Selic, CDB com liquidez diária ou fundo DI). O restante fica alocado em ativos que rendem mais; que, no entanto, são menos líquidos (Tesouro Pré, Tesouro Inflação, debêntures, CDB com carência, LCI, LCA, etc). É uma boa prática determinar os percentuais destas subdivisões também, por exemplo, dos 60% em renda fixa, 20% podem ficar em uma posição de caixa e os outros 40% em ativos que rendem mais. Com renda variável, faz-se a mesma coisa. Dos 40% em renda variável, 20% podem ficar em ações, 10% em fundos imobiliários, 5% em criptomoedas e 5% em seguros (ouro, por exemplo)*:
Classificação | Ativos | Percentual |
Reserva de emergência | Tesouro Selic, CDB com liquidez diária ou fundo DI | A reserva fica sem percentual, mas com valor fixado de acordo com o artigo A importância de ter uma reserva de emergência |
Caixa líquido | Tesouro Selic, CDB com liquidez diária ou fundo DI | 20% |
Renda fixa (com pouca liquidez) | Tesouro Pré, Tesouro Inflação, debêntures, CDB com carência, LCI, LCA, etc. | 40% |
Ações | Ações individuais ou cotas de ETF’s | 20% |
Imóveis | Fundos Imobiliários | 10% |
Criptomoedas | Bitcoin, Ethereum e outras | 5% |
Seguros | Ouro | 5% |
* Esta alocação é meramente um exemplo, não é uma sugestão.
A vantagem de separar os investimentos nas diversas classes de ativos é aproveitar os ganhos de diversificação em ativos com baixa correlação, que não andam na mesma direção com frequência. Assim, você consegue aproveitar os ganhos com a subida de um ativo para comprar outro que caiu. Em seguida, estes ativos que caíram vão subir e você ganha dinheiro fazendo o processo inverso.
Por exemplo, em condições normais, ações e títulos de renda fixa podem ter correlação negativa (quando um sobe, o outro desce) e você ganha mais aproveitando os movimentos dessa montanha-russa. Porém, em situações de crise, ações ganham correlação positiva (caminham na mesma direção) com a renda fixa no curto prazo e cai tudo ao mesmo tempo. Nesses momentos, você consegue se aproveitar da correlação negativa entre as ações e o ouro, pois essa correlação até se acentua em situações de estresse. O ouro é uma típica reserva de valor, as pessoas fogem para ele em momentos de tensão. Você pode aproveitar a subida do ouro, vender um pouco e comprar as ações que tiveram queda recente. Apesar da volatilidade, o bitcoin já foi utilizado como reserva de valor em países em crise inflacionária e com fortes restrições de liberdade, como Venezuela e Zimbábue (leia o artigo Por que bitcoin não é fraude, pirâmide ou bolha).
Harry Markowitz, criador da Teoria Moderna de Portfólios, disse em uma célebre frase do mercado financeiro que “a diversificação é o único almoço grátis em finanças”. Colocar os ovos em mais de uma cesta, não custa nada (ou quase nada) e pode fazer você ganhar bastante. A partir do momento que você já determinou os percentuais e alocou devidamente o seu dinheiro no portfólio escolhido, vem o segundo passo da estratégia: você vai precisar fazer um rebalanço (reequilíbrio). Com o tempo, os ativos vão se mover e os percentuais da sua carteira de investimentos vão mudar (o seu portfólio real vai se afastar do seu portfólio escolhido). Assim, você vai precisar vender parte dos ativos que subiram para comprar mais dos que caíram, restabelecendo os percentuais predeterminados e garantindo os ganhos de diversificação citados acima. Você precisará fazer um rebalanço periodicamente a cada três, quatro, seis meses, no máximo, um ano (você escolhe a periodicidade).
Essa estratégia não garante que você vai ter a carteira de investimento campeã do ano, mas que, provavelmente, você vai ganhar dinheiro de forma consistente no longo prazo, de maneira simples (sem cálculos complexos) e com risco moderado. Tudo que precisa fazer é perceber a sua sensibilidade a risco, escolher as classes de ativos para investir, determinar os percentuais de alocação de acordo o risco que tolera, alocar o dinheiro e fazer o rebalanço periodicamente. Os benefícios dessa estratégia estão destrinchados no livro do Tonny Robbins, Money: Master the Game (já tem tradução disponível). Foi com a leitura deste livro que consegui romper minha paralisia por análise e começar finalmente a investir em renda variável. É um pouco prolixo, mas muito bom. Depois de anos tentando encontrar a estratégia ideal para mexer com ações, percebi que só precisava de algo que permitisse ganhos consistentes com risco moderado.
Mas você deve estar pensando: quais ações escolher? Vou precisar guardar ouro em casa? Procurar uma terra para comprar no interior do meu estado? Procurar um bom imóvel? Nada disso. As facilidades modernas estão aí, não resista. Para comprar ações sem se preocupar com quais escolher, você pode investir em fundos de índice, ETF’s (Exchange Traded Funds). Esses fundos replicam passivamente, com baixa taxa de administração, a carteira de um índice. Por exemplo, o fundo BOVV11, negociado na bolsa, replica a carteira do índice Ibovespa com taxa de 0,3% ao ano, enquanto um fundo de ações típico cobra taxa de 2% ao ano (mais taxa de performance). Existe ETF de ouro também, eles se responsabilizam pela guarda do metal e negociam as cotas do fundo na bolsa americana. No Brasil, há fundos de investimento em ouro, porém estes apenas negociam as cotas de ETF’s americanos cobrando taxa superiores a 1% ao ano, enquanto pegando as cotas diretamente nos States você paga taxas na ordem de 0,17% ao ano (nada como beber direto na fonte). Há empresas que negociam terras destinadas ao agronegócio, você pode comprá-las em bolsa como forma de ter terras indiretamente. Não compre imóveis diretamente como forma de investir, é uma prática pouco eficiente, exceto se tiver muito dinheiro e souber negociá-los. Compre cotas de fundos imobiliários listados em bolsa. Com estes, você consegue ser dono de parte de shoppings centers, imóveis corporativos (salas comerciais), galpões logísticos e outros empreendimentos com pouco dinheiro, de forma diversificada, tendo acesso a uma gestão profissional e sem se preocupar com cartórios, reformas, corretagem e outras pendengas do mercado de imóveis.
Um detalhe importante dessa estratégia é a boa dose de passividade. Você não escolhe as ações nas quais investir, quais imóveis ou terras comprar, o momento do rebalanço já foi escolhido previamente e não há necessidade de ficar olhando o mercado o tempo todo para decidir se vai comprar ou vender. Essa estratégia é baseada na ideia de que a gestão ativa mais atrapalha do que ajuda e pode tirar a sua atenção na aplicação dos segredos citados acima. Investir passivamente permite você focar mais em aumentar suas receitas e diminuir suas despesas na vida cotidiana, algo bem mais controlável e visível do que as múltiplas variáveis que influenciam o mercado financeiro.
As baixas taxas também são mais um ganho do investimento passivo. Um fundo de ações com gestão ativa que cobra 2% ao ano, com frequência, não consegue bater o índice que pode ser acessado a uma taxa 0,3% por meio de um ETF e pode acreditar que você também não vai conseguir bater o índice de ações com facilidade. Um índice é uma média e, como toda média, é bastante afetada por valores extremos (veja o artigo Medidas resumo: média, mediana e moda) e os ganhos com ações costumam ser bastante assimétricos para o lado positivo. Vencer o índice passa a ser um exercício de quanto se está alocado nas ações campeãs do ano, que não necessariamente são determinadas por critérios facilmente previsíveis. Uma das maiores altas recentes da bolsa brasileira foi as ações do Magazine Luiza, que subiram mais de 15.000% ao longo de três anos quando muitos já davam a empresa como um caso perdido (a aleatoriedade impera!). Você dificilmente teria Malagu em carteira, mas algum índice foi puxado para cima por esses cinco dígitos.
Algo interessante a se fazer é usar os próprios aportes para reequilibrar sua carteira entre um rebalanço e outro. Esses aportes podem ser fruto do que sobrou do salário no fim do mês, da restituição de imposto de renda, do lucro com seu negócio (caso não seja mais interessante reinvestir neste). Assim, ainda se pode economizar com possíveis taxas na venda de ativos.
Com o passar do tempo, com o aumento consistente de patrimônio acumulado, a sua reserva de emergência vai se tornar uma fração pequena comparativamente ao seu portfólio. Nesse momento, você poderá fundir sua reserva de emergência com o caixa líquido. Se a reserva é uma pequena fração do patrimônio, não é necessário pensar nela de forma destacada. Assim, você poderá ter apenas uma posição líquida de caixa.
Para fechar, como nada é imutável, após algum tempo, ao adotar essa estratégia de investimento, você pode sentir a necessidade de mudar alguns pontos: investir em novas classes de ativos, deixar de investir em outras, alterar os percentuais de alocação, etc. Investir é mais do que alocar dinheiro esperando ganhar mais em troca no futuro, é um reflexo da sua personalidade e momento de vida. Ao aprender mais sobre o mercado, você pode sentir confiança para buscar retornos melhores. Quando você fica mais velho e seu patrimônio já cresceu, você pode querer diminuir sua posição em investimentos mais arriscados. Você pode começar a empreender e sentir a necessidade de não se arriscar tanto com ações ou criptomoedas, pois já estará se arriscando demais no negócio próprio. Muitos empresários de sucesso se limitam a ter somente caixa líquido no seu portfólio, pois já arriscam demais empreendendo ou acham que não há outra opção com maior potencial de retorno do que o seu próprio negócio. Fique à vontade para alterar o seu portfólio quando este não refletir mais quem você é.
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Estatístico e cientista de dados. Apaixonado por aprender e compartilhar conhecimento nas áreas de estatística, economia, finanças e investimentos. Experiência com modelagem estatística e econométrica para a previsão de demanda no transporte rodoviário de passageiros e ferroviário de cargas; análise econômico-financeira de seguros ferroviários; planejamento amostral para pesquisas de campo e construção de modelos de Machine Learning para a análise de propensão de compra, risco de crédito e detecção de fraude.